O dia em que quase desconfiei da comida da minha vizinha
Quando me ver agindo assim, saiba que estou sendo forjada e forçada contra a minha vontade. Seja diretamente pelo algoritmo ou pelo contexto que ele construiu — e que nós aceitamos.
Vivemos com medo e desconfiados de tudo e de todos. E falo em primeira pessoa porque, infelizmente, não escapei. O medo já era esperado sendo mãe de três filhos — e ainda mais esperado por serem três filhos pardos/negros. Mas as redes sociais pioram tudo. É uma notícia apavorante atrás da outra. Sempre caio na armadilha de achar que devo estar por dentro, ainda mais porque trabalho com conteúdo para famílias com crianças. Somos atraídos pela polêmica e traídos por nossa curiosidade infeliz. E meu cérebro sempre dá uma desculpa para ler e assistir inúmeras perversidades, como se as que passamos na realidade não fossem suficientes.
Meu cérebro me vende a ilusão de que devo estar preparada para agir. Mas o que sobra de realmente relevante quando filtramos todas as notícias horríveis que correm em nosso feed?
Racismo, vulnerabilidade e estado de alerta constante
Os casos de racismo que vivemos em família são suficientes para me adoecer fisicamente e me deixar em constante estado de alerta. Eu não precisaria ver inúmeros vídeos para entender o quanto isso é cruel e como devo me preparar. Inclusive porque é justamente em nosso momento de absoluta vulnerabilidade e despreparo que ele chega. Não estamos com câmeras ligadas ou com o espírito preparado para agir. Muitas vezes estamos, finalmente, curtindo um belo momento — sendo felizes, nos sentindo abençoados. E então ele chega como um hormônio paralisante, atacando cada célula sua, despertando uma aceleração no peito e a pior crise de ansiedade. E tudo aquilo que você viu no feed infelizmente não vai ajudar — talvez até piore. Os casos devem, sim, ser expostos quando essa exposição ensejar uma providência prática e direta, como uma consequência legal e jurídica, por exemplo.
Por que não viralizamos mais vídeos para aprendermos a respirar melhor, fortalecer nossa autoestima e compreender nossa própria história? Por que o que se espalha não é o conteúdo que ensina como agir com dignidade diante de um ataque racista, como registrar provas, como denunciar nos canais corretos, como buscar respaldo legal, como conversar com nossos filhos sobre identidade racial de forma estruturada, como formar uma rede de apoio real? Preparação não é consumir medo. Preparação é conhecimento, consciência e estratégia.
A Raquel original versus a Raquel moldada pelo feed
Em um dos meses de escândalos por envenenamento, o algoritmo tratou de entregar vários vídeos sobre “trabalhos espirituais” negativos em comidas e sobre como nunca devemos aceitar comida de vizinhos e colegas de trabalho. E, nesse mesmo período, minha vizinha compartilhou seu almoço conosco, em um gesto de carinho. Na hora, todos aqueles vídeos me vieram à cabeça — e isso é horrível — porque, por um descuido, queremos achar que é intuição ou que Deus mandou um aviso para nos protegermos. Raquel nunca pensaria isso.
A Raquel original ama compartilhar comida com vizinhos e queria fazer um bolo assim que se mudou para a nova vizinhança. Todos me impediram, afirmando ser um costume nordestino que seria mal interpretado aqui em Brasília. Será apenas isso? Ou é o bichinho do medo e do isolamento nos apanhando? O desespero aqui em casa foi tão grande que parecia que eu ia jogar uma bomba. Mas eu queria apenas apresentar nossa família e dizer que estamos à disposição. Na última casa, uma vizinha mineira assou pães de queijo assim que chegamos. E, quando ainda morava com minha mãe e irmãos, mulheres de uma família árabe muçulmana assavam pratos típicos para nós. Também compartilhamos os nossos, mesmo sem trocarmos uma palavra sequer. Nossa linguagem era apenas a comida e o sorriso.
Agora não podemos compartilhar comida, pois pode conter veneno físico ou “espiritual”. Creio que começamos a confundir intuição com projeção do algoritmo.
E agora, quando tenho uma intuição verdadeira, confundo com essas paranoias alimentadas pelo bombardeio de bobagens das redes sociais.
Precisamos mesmo saber de tudo?
Então devemos nos isolar do mundo e não saber das notícias? Sinceramente, entre não ter redes e saber absolutamente tudo, tenho plena convicção de que a primeira opção é a mais saudável.
Insisto que não posso, por conta do meu trabalho (surpresa: trabalho com mídias sociais), mas sei que muitas vezes passo 90% a mais do tempo realmente necessário.
Tenho dores de cabeça e enjoo. Passo muito mal quando isso acontece. Me admira que crianças e adolescentes (meus filhos não escapam) consigam passar tanto tempo nisso sem ter ânsia de vômito.
Devemos nos preservar e proteger nossa família — é óbvio. Mas talvez isso inclua nos preservarmos de informações irrelevantes ou tendenciosas nas redes sociais, filtrando o que faz sentido em nosso contexto e descartando, com consciência, o que nos adoece e nos amedronta sem oferecer qualquer solução.
Não saio me abrindo com tudo e com todos, muito menos as portas de casa. Diria até que somos bem reservados. Mas viver com medo das pessoas seria me afastar de mim mesma — e isso eu não quero.
Para que consigamos respirar melhor, é preciso aprender a baixar as armas e reconstruir algumas pontes. Ao vivo, a cores. De preferência com música, café e toque.
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