Amor e Decisões: A Linha Tênue Entre Continuar ou Partir
Quero continuar acreditando no amor, no casamento, na bondade e nas coisas boas.
Mas não sem antes reconhecer nossa natureza falha e humana diante de tantos desafios.
Não sem antes aceitar que não existe fórmula mágica ou certezas em nenhuma religião, filosofia, método, livro ou cursinho de Instagram.
Não sem antes admitir que as desigualdades e injustiças que vivemos hoje foram moldadas e construídas por uma soma de pequenas e grandes decisões cruéis e infelizes ao longo da história deste país. Essas escolhas nos impactam individual e coletivamente.
Não há como descolar nossa vida familiar e de casal da realidade e do contexto em que vivemos. Com essa consciência, que novas escolhas faremos?
Os desafios chegam para todos os casais, e com eles, surgem as dúvidas.
Quando os casais decidem se separar, será que ambos têm tanta certeza dessa decisão? Será que nunca se arrependeram? E pergunto o mesmo para quem decide continuar.
Ambas as decisões têm consequências, ônus e bônus. Como identificar o que é melhor para cada um, para cada filho, para toda a família? Será que existe uma única solução viável? Nossas atitudes e decisões diárias vão traçando nosso caminho, pois, como sempre gosto de dizer, o caminho só se faz ao caminhar.
Quem tem fé, pede: (Senhor, Mãe, Oxalá, Universo), guie meus passos. Que seja o melhor para mim e para todos.
Mas que linha tênue há entre as tantas opções que temos em nosso casamento, em nossa parentalidade, em nossa profissão.
Será que escrever este texto foi a melhor decisão?
Eu poderia estar editando um vídeo, procurando a fantasia que preciso comprar para a Marina ou falando sobre a chegada do Papai Noel no fim de semana. Quando escolhemos uma ação, automaticamente renunciamos às outras.
Até hoje reflito sobre um filme que assisti há 20 anos: Efeito Borboleta. Estava na casa do tio de uma grande amiga e fui tremendamente impactada na ocasião. Cada pequena escolha pode mudar absolutamente tudo, e nunca saberemos o que teria acontecido. Os outros caminhos sequer existem, pois não há pegadas. Caminho só se faz ao caminhar.
Quando me conecto a cada mulher ao meu redor, sinto que não existe uma única solução. Se é difícil julgar, impossível é condenar. Podemos não concordar com algumas atitudes, podemos fazer escolhas diferentes e ter princípios diferentes, mas cada uma de nós faz o que é possível dentro de seu contexto familiar, religioso, socioeconômico e emocional. E, acima de tudo, com o nosso único pozinho mágico que nos faz ser exatamente quem somos.
Algumas mulheres vivem com pequenas ou grandes agressões físicas e verbais. Outras enfrentam gritos e ameaças, quase sempre para ficarem perto dos filhos ou por medo das consequências de uma denúncia ou separação. Algumas denunciam ou se separam. Se há uma escolha que interrompe de vez o ciclo da violência, eu desconheço. Para ambas as escolhas, já vi consequências duras e, às vezes, trágicas. A cura é sempre um processo, e quem pode fugir desse processo? E como vivemos em sociedade, nossas escolhas cruzam com as escolhas alheias, fazendo de nosso caminho o resultado de todas elas.
Algumas mulheres preferem não assumir um relacionamento ou não se relacionar, outras se relacionam com outras mulheres, algumas escolhem ter filhos sem casar, outras casar e não ter filhos. Muitas, infelizmente, não podem escolher.
Por algum motivo, sinto-me mais fortalecida quando contemplo e honro cada escolha ao meu redor. Sinto-me feliz cada vez que vejo uma mulher assumir sua identidade e sua força, assim como suas vulnerabilidades e fragilidades.
Que possamos nos respeitar assim.
E como sou das que têm fé, peço: Mãe, guie nossos passos e acolha cada uma de nós em seu manto sagrado.
Com amor,
Raquel Dória
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