The Middle representa uma família fracassada? O que a série ensina sobre sucesso, classe média e vida real
“Histórias boas geralmente são sobre pessoas imperfeitas tentando viver uma vida digna.”
— John Steinbeck
Recentemente começamos a assistir The Middle: Uma Família Perdida no Meio do Nada e Henrique logo apelidou os Heck de “família fracasso”.
— E aí, vai assistir à família fracasso de novo?
O apelido pegou logo nos primeiros episódios, quando Frankie não conseguia fechar uma venda por nada neste mundo e, além disso, os problemas domésticos pareciam estourar como pipoca: um filho doente, um cano quebrado, contas atrasadas…
Frankie é um espelho?

À medida que a série avançava, fui me enxergando nela.
Apesar de ser latina demais no temperamento para me parecer com Frankie, as situações externas e cotidianas são incrivelmente familiares.
Eu me esforço para manter o otimismo, nutrido pela fé e pelo ho’oponopono, mas carrego doses cavalares de consciência social e política, que às vezes ajudam a explicar o processo e, em outros momentos, parecem complicá-lo ainda mais.
No caso da Frankie, eu diria que ela pratica um otimismo realista.
Nós também temos três filhos e um casamento absolutamente imperfeito, porém estável. Sem traições, sem violência, sem uso de drogas ou abuso de álcool. Outra semelhança é que procuramos manter uma boa relação com as pessoas ao nosso redor, mas sempre focados do portão para dentro.
As situações são parecidas, embora eu nos considere mais sortudos em alguns aspectos.
E vou ser sincera: nós, da classe média baixa, precisamos de algumas doses de sorte e de otimismo.
Porque um carro quebrado ou um cano estourado pode atrapalhar profundamente a rotina de uma família como a nossa. É como se estivéssemos sempre por um fio. Levamos a vida relativamente bem desde que ninguém adoeça e nada quebre. Estamos quase sempre administrando algum boleto atrasado — e os impostos que o digam.
Viver assim é desgastante porque nunca conseguimos relaxar completamente. Estamos sempre em estado de alerta.
Equilibrando os pratos

Eu quase sempre tenho insônia porque sinto que há alguns pratos girando ao mesmo tempo. Não é apenas um prato caindo. São vários. O suficiente para fazer barulho.
Quando observo minha rotina com os meninos, me identifico demais com Frankie.
São marmitas — e cada filho tem uma preferência diferente.
São roupas de balé, futebol e academia que precisam estar limpas diariamente.
São cartões de passe que não podem ser esquecidos.
Na ida para o trabalho, faço quatro paradas antes de chegar à quinta: o meu próprio local de trabalho.
Cada um estuda em uma escola diferente e Henrique desce na parada mais próxima do serviço dele.
Todos os dias aparece uma rifa, um refrigerante para levar, um lanche coletivo, um bilhete da escola reclamando dos atrasos ou alguma insatisfação nossa com a própria escola.
Como Frankie e Mike Heck, às vezes temos disposição para resolver determinadas situações. Em outras, simplesmente aceitamos coisas que consideramos injustas porque a energia acabou.

O curioso é que, quando finalmente conseguimos encontrar tempo e força para correr atrás de algo, a rotina já tratou de criar outras urgências.
Graças a Deus temos plano de saúde e também contamos com o SUS. Mas isso não elimina o tempo necessário para cuidar da saúde das crianças.
Marina tem um grau elevado de hipermetropia e astigmatismo, além de uma questão hormonal importante que exige acompanhamento constante.
João eventualmente enfrenta episódios de desidratação e queda de pressão.
Luís convive com um tumor benigno no crânio, asma, rinite e outras pequenas questões que exigem atenção.
São muitas idas a laboratórios, consultórios e hospitais.
E, ainda assim, nunca parece que estamos totalmente em dia.
Neste momento, por exemplo, a saúde bucal é um dos pratos estilhaçados no chão.
No meio desse caos, buscamos nos conhecer e nos apoiar.
Entre uma discussão e uma frustração, muitas ave-marias e alguns ho’oponoponos.
Entre um choro e um grito, muitos abraços e danças pelos corredores do supermercado (porque o nosso afeto é latino demais para caber dentro da contenção emocional dos Heck).
E, no meio de tudo isso, permanece uma pergunta:
E se você fizer tudo “certo” e ainda assim a vida continuar difícil?

O “certo”, nesse caso, seria trabalhar com ética, cultivar a espiritualidade e tentar melhorar como pessoa.
Já ouvi e li muito sobre lei da atração e ho’oponopono. Em alguns aspectos, essas ideias me lembram o conceito do sonho americano.
Eu acredito que atitude, fé e esperança importam.
Mas será que é tão simples?
Será que prosperidade material é a única medida possível de sucesso?
E será que tudo depende exclusivamente de nós, mesmo em um mundo marcado por desigualdades sociais, racismo e misoginia?
Basta acreditar? Basta vibrar?
O perigo dessa lógica é imaginar que somos os únicos responsáveis por tudo o que acontece conosco.
E, quando os resultados não aparecem, acabamos entrando em um ciclo de culpa e frustração.
No Brasil, a série recebeu o subtítulo Uma Família Perdida no Meio do Nada.
Mas, pensando bem, talvez os Heck sejam apenas uma família mediana.
E como essa palavra é temida:
mediana.
Me-di-a-na.
Vivemos em uma cultura que idolatra os extremos. O extraordinário. O excepcional. O fora da curva.
Mas começo a achar que ser mediano pode ser uma coisa boa.
E estar no meio talvez seja melhor ainda.
Gosto da ideia do caminho do meio porque ele me parece equilibrado e humano.
Assim como Frankie, continuo desejando prosperidade material porque sei o quanto ela impacta todas as áreas da vida.
Mas talvez também possamos rir bastante enquanto caminhamos.
Talvez possamos agradecer pelo que já existe.
Posso enxergar uma família fracassada ou cinco pessoas fazendo o melhor que conseguem com os recursos que têm.
Cinco pessoas tentando viver uma vida digna.
(Mesmo o Axl com toda a sua chatice. Affeee.)
E você, o que acha de The Middle?

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