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Aqui entre nós: nosso silêncio durou tempo demais

Aqui entre nós: nosso silêncio durou tempo demais

Por que decidi voltar a escrever sobre nossa família interracial

Acho engraçado que, no Instagram, algumas pessoas me associem à luta antirracista, quando eu tenho a sensação oposta. Porque não conto o que realmente vivemos como família. A verdade é que tenho me calado há muitos anos.

Não por não ter o que dizer, mas porque aprendi que algumas palavras têm consequências.

Consequências para contratos de trabalho, para relações familiares, amizades, para a vida escolar dos meus filhos e para as pessoas que eu amo.

Descobri que, muitas vezes, o silêncio também é uma forma de proteger e, durante muito tempo, essa pode ter sido a melhor escolha. Hoje já não tenho tanta certeza.

Não porque eu ache que vou convencer quem pensa diferente. Na verdade, deixei de acreditar nisso há muito tempo. Pessoas mudam quando desejam mudar e, na maioria das vezes, nossos argumentos não parecem fazer tanta diferença.

Hoje escrevo por outro motivo: talvez exista alguém vivendo algo parecido e acreditando estar sozinho.

Talvez exista outra mãe, outro pai, outra família interracial. Alguém que nunca conseguiu colocar em palavras aquilo que sente.

E, se este texto encontrar uma única pessoa, talvez ele já tenha cumprido seu propósito.

Não pretendo responder a todas as perguntas sobre um tema tão complexo. Escrevo apenas como alguém que decidiu compreender melhor a própria história. Por isso, procuro me apoiar naquilo que está amplamente documentado pela pesquisa e, sobretudo, no que vivi e observei ao longo desses anos.

Quando conheci Henrique, eu não imaginava que aquele relacionamento mudaria profundamente a maneira como eu enxergava o mundo.

Na época, eu acreditava que entendia bastante sobre desigualdade, pois já tinha participado de debates, lido livros e acompanhado discussões sobre cotas, racismo e direitos sociais.

Mas hoje percebo que informação não é a mesma coisa que experiência. Existe um tipo de conhecimento que só chega quando a vida muda o lugar de onde olhamos. Foi o que aconteceu comigo.

No começo, a diferença parecia apenas financeira.

Eu vinha de uma família de classe média, filha de servidores públicos. Meu sogro também era servidor público, então por que nossas vidas pareciam tão diferentes? Demorei para perceber que não eram exatamente os salários que distinguiam nossas famílias, mas o caminho que havia levado cada uma delas até aquele momento.

As oportunidades, as redes de apoio, a escola, o acesso à saúde, as viagens, os idiomas, a tranquilidade para fazer planos. Tudo parecia tão diferente que comecei a fazer perguntas que nunca havia feito.

Será que meus pais trabalharam mais do que meus sogros?

A resposta nunca me pareceu tão simples. Meu sogro sempre trabalhou muito e chegou a ter dois empregos, acumulando longas jornadas. Minha sogra dedicou a vida à criação dos quatro filhos, como tantas mulheres fizeram — e ainda fazem.

Foi tentando responder a essa pergunta que comecei a olhar para trás. Quanto mais eu estudava esse período, mais fazia sentido para mim que parte das diferenças entre nossas famílias também estivesse ligada a essa história.

Cada família tem sua história, e há diversos fatores que influenciam o estilo de vida, a moradia e as oportunidades. Mas, quando comecei a olhar duas ou três gerações para trás, percebi que, em um passado muito próximo, nossa união teria sido ainda mais difícil e que alguns de nossos antepassados viveram realidades profundamente diferentes.

Foi olhando para as gerações que vieram antes de nós que comecei a entender que nossa história não começava conosco. Como viviam as famílias negras no Brasil há 100 ou 150 anos? Quais oportunidades lhes eram oferecidas? Quais lhes eram sistematicamente negadas? Quanto mais eu buscava essas respostas, mais fazia sentido para mim que parte das diferenças entre nossas famílias também estivesse ligada a essa história. Como acreditar que a abolição resolveu tudo em um passe de mágica, se até hoje ainda convivemos com pessoas que afirmam ou insinuam a superioridade de um grupo sobre outro por causa da cor da pele?

Como acreditar que tudo ficou para trás, se eu mesma já ouvi esse tipo de discurso dentro da minha própria família?

O que me parece é que a maioria dos brasileiros enfrentou inúmeras dificuldades ao longo da história, mas as famílias negras enfrentaram desafios adicionais diretamente relacionados à escravidão, ao racismo e às desigualdades construídas ao longo do tempo. Além da violência sofrida por seus antepassados, a abolição não foi acompanhada de políticas amplas de acesso à terra, educação, moradia ou reparação. Ao mesmo tempo, o Estado brasileiro incentivou a imigração europeia em larga escala no período pós-abolição, em um contexto marcado também por ideias de “branqueamento” da população.

Quando faço um exercício para imaginar onde provavelmente estavam nossos antepassados, quais oportunidades lhes foram oferecidas ou negadas e por quê, percebo que existem muitas diferenças. E que esse é um tema extremamente complexo em um país profundamente miscigenado como o Brasil.

A própria família de Henrique, como tantas outras neste país — e provavelmente a minha também — reúne ascendências africanas, indígenas e europeias.

Mas, em outro exercício, imagino em que contextos essa miscigenação aconteceu.

Quantas mulheres escravizadas foram violentadas por seus senhores? Quantas trabalhadoras domésticas sofreram violência de seus patrões ao longo da história? Não preciso citar casos específicos para compreender que essa também faz parte da formação do Brasil.

Foram essas histórias, geração após geração, que me fizeram começar a entender e a questionar o que nos trouxe até aqui. Imaginar a vida de nossas tataravós, bisavós, avós e de tantas pessoas que vieram antes de nós mudou profundamente a maneira como passei a enxergar o presente.

Ao olhar para a história da minha própria família, comecei a me perguntar qual teria sido o lugar de nossos antepassados naquele Brasil escravista. Não consigo reconstruir toda essa trajetória, mas sei que ela foi atravessada pelo contexto em que viveram. E compreender esse contexto passou a ser mais importante para mim do que encontrar respostas definitivas sobre cada nome da árvore genealógica.

Existem heranças invisíveis que atravessam gerações inteiras. O que exatamente herdamos? E o que deixaremos de herança?

No próximo texto, conto como a gravidez do João trouxe os primeiros comentários sobre sua cor de pele e seu cabelo — e como aquelas falas, que muitos chamariam de “brincadeiras”, começaram a mudar a forma como eu enxergava o mundo.

→ Clique aqui para ler o próximo texto da série.

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