×

Aqui entre nós: meu filho nasceu durante a final da Copa do Mundo

Aqui entre nós: meu filho nasceu durante a final da Copa do Mundo

Naquele dia, enquanto milhões de brasileiros esperavam o início da final da Copa do Mundo de 2014, eu só conseguia pensar em uma coisa: que meu filho nascesse bem.

A final entre Alemanha e Argentina começou às 16 horas do dia 13 de julho de 2014, no Maracanã.

A certidão de nascimento de Luís registra 16h02 : o instante em que o meu mundo mudou.

A queda

No dia anterior, Brasil e Holanda disputavam o terceiro lugar aqui em Brasília, no Mané Garrincha.

Henrique e eu ganhamos um par de ingressos e resolvemos levar o Ju. Alguns familiares ficariam na Feira da Torre enquanto assistíamos ao jogo.

Pouco antes de atravessar o sinal em frente ao Brasil 21, tropecei. Tentei recuperar o equilíbrio, mas fui me desequilibrando até cair sobre minha sogra, que caminhava alguns metros à frente.

Caímos as duas: ela, já idosa, e eu, grávida de 37 semanas.

Foi uma queda da própria altura, mas suficientemente forte para me assustar.

Desistimos imediatamente do jogo e entregamos os ingressos ao tio e ao primo de Henrique. A pessoa que nos havia presenteado ficou bastante aborrecida, pois queria oferecê-los a outra pessoa caso não fôssemos. Voltei para casa muito abalada.

Até hoje não sei se a queda ou todo aquele estresse tiveram alguma influência. Só sei que, naquela madrugada, minha bolsa rompeu.

A lua cheia

Liguei para Duda, uma amiga doula que imediatamente saiu de casa para ficar comigo.

Era noite de lua cheia e morávamos em uma casa pequenina, a poucos metros do Lago Paranoá.

A madrugada estava tão clara que fomos caminhar até a margem do lago. Entrei na água por alguns minutos. Quando voltamos para casa, as contrações começaram a ganhar ritmo.

Entre caminhadas pelo quintal, exercícios na bola de pilates e muita conversa, os intervalos foram diminuindo, mas nada parecia urgente.

Esperamos amanhecer para avisar a família, pedir que minha cunhada ficasse com o Ju e seguir para o Hospital Regional de Sobradinho.

Depois da experiência difícil que havia vivido no parto do João, eu precisava apenas de uma certeza: que Luís estivesse bem.

Enquanto todos pensavam no jogo

Logo no início do atendimento surgiu um problema: não queriam permitir que Duda e Henrique permanecessem comigo.

Depois de muita conversa, Henrique conseguiu entrar e Duda precisou ir embora.

Meu desejo era conseguir um VBAC — um parto normal após uma cesariana. Durante toda a gestação eu havia me preparado para isso.

Caminhava pelos corredores do hospital com contrações ritmadas, bolsa rota e um pequeno sangramento.

Foi então que comecei a perceber um movimento diferente.

Quanto mais se aproximava das quatro da tarde, mais os profissionais olhavam para os relógios, comentavam a partida e conferiam os celulares.

Enquanto isso, eu só conseguia pensar no meu filho.

A médica me examinou novamente.

Olhou para mim e disse:

— Vamos para a cesárea.

Naquele instante senti meu peito apertar e os membros adormecerem. Minha mãe ainda estava viajando, a caminho de Brasília. Não deixaram Henrique entrar.

Abracei minha barriga e perguntei:

— Está tudo bem com o Luís?

Ela respondeu que sim.

Respirei aliviada e perguntei:

— Então podemos esperar mais um pouco?

Ela respondeu que já havíamos esperado o suficiente.

Comecei a chorar e implorei para aguardarem mais algumas horas.

Foi quando alguém comentou:

— Você quer que o bebê nasça na hora da final entre Alemanha e Argentina? Era só o que faltava.

Mas… oi? Eu mal sabia quem jogaria aquela final.

Naquele momento, nenhuma partida do mundo poderia ser mais importante do que o nascimento do meu filho.

A sala de cirurgia

Entrei em uma crise de ansiedade como nunca havia experimentado: as mãos suavam, o coração disparava.

Parecia que eu iria morrer naquela sala. Foi quando fechei os olhos e pensei em Jesus. Disse que não conseguiria rezar direito, mas pedi que permanecesse comigo mesmo assim.

Eu pedi a uma profissional que segurasse a minha mão e ela riu com sarcasmo. “Só me faltava essa, não estou aqui para segurar a mão de ninguém. Fique calada que você está atrapalhando o processo, não pode conversar”. Voltou para os colegas e seguiu falando sobre o jogo.

Naquele instante compreendi que precisaria atravessar aquele mar praticamente sozinha e proteger meu filho. Naquela sala gelada, olhei para cima e pedi, em silêncio, que Deus enviasse um espírito amigo para segurar minha mão. Hoje ainda me emociono quando lembro dessa oração.

Chamei por Nossa Senhora e disse que Ela jamais me abandonaria. Eu disse: “Mãezinha, acalme meu coração e cuida de meu filho, que é também da Senhora. Permaneça conosco nesta sala, pois a Sua companhia e proteção são incomparáveis”.

Eu estava profundamente assustada.

O silêncio depois do nascimento

Luís nasceu às 16h02 e recebeu um Apgar melhor que o do irmão, mas ainda assim foi encaminhado para a CTIN.

Meu coração doía fisicamente e as pernas permaneciam anestesiadas. O ventre recém-costurado parecia que se abriria a qualquer movimento.

Fui levada para uma sala vazia, talvez por causa da final da Copa, não sei. Só sei que me vi completamente sozinha, olhando para o teto.

Comecei a chamar bem alto:

– “oiiii, tem alguém aí?” Na minha lembrança, minha voz faz eco e chega até a ser engraçada, como se estivesse em um filme muito louco. Parece que estou assistindo a cena. Eu posso ter achado certa graça naquela situação absolutamente inusitada. Em uma tarde de domingo, uma mãe ainda anestesiada e quase caindo da maca, sozinha em uma sala chamando por alguém. Creio que devem ser raros os momentos vazios em hospitais públicos.

Mas a verdade é que eu precisava saber onde Luís estava, sentir seu cheiro e começar a amamentar.

Naquele silêncio, percebi o quanto a maternidade pode ser solitária.

Um gesto que nunca esqueci

Nem tudo, porém, foi dor. Nesta sala, uma enfermeira chegou e também achou um pouco de graça, dizendo com delicadeza:

– Te esqueceram aqui, foi? Vou te ajeitar.

E ajeitou meu corpo anestesiado, me deixando mais segura. Eu disse que precisava ver meu filho e ela disse que me ajudaria. Ela saiu e logo voltou com meu Luisinho, colocando-o sobre meu peito.

Chamou a pediatra e disse:

— Está vendo? A respiração dele se acalma quando fica com a mãe.

Por alguns minutos, tentaram esperar e a pediatra reconheceu que aquilo realmente ajudava, mas mesmo assim decidiu levá-lo para a CTIN. Explicou que não queria correr riscos, caso ele apresentasse alguma dificuldade respiratória e não houvesse tempo para agir.

Senti um misto de tristeza e profunda gratidão pelo gesto da enfermeira em tentar intervir ao nosso favor. Ainda peço a Deus que abençoe seus dias de trabalho. Por outro lado, mesmo que muito triste, procurei também entender a decisão da médica.

Depois

Dias depois, ao tentar retirar os pontos, a médica do posto descobriu que algo não estava bem com a sutura. Fui encaminhada novamente ao hospital.

Os profissionais demonstraram surpresa com a técnica utilizada e não souberam como removê-los. Inclusive me perguntaram onde o parto aconteceu e ficaram ainda mais surpresos quando disse que foi lá, naquele mesmo hospital. Depois de muitas tentativas sem sucesso, fiquei com aqueles pontos.

Anos depois desenvolvi uma istmocele. Não sei se existe relação entre uma coisa e outra.

Não escrevo para apontar ou procurar culpados. Mas se este relato puder sensibilizar profissionais que acompanham gestantes e lembrar da importância de um olhar acolhedor, de uma palavra gentil ou simplesmente de segurar a mão de alguém em um momento de medo, ele já terá valido a pena.

Hoje

Ainda me emociono quando lembro daquele parto e confesso que chorei ao escrever.

Mas a dor mudou de lugar, já não ocupa tudo.

Com o passar dos anos, também aprendi que talvez aquele realmente fosse o momento certo para o nascimento de Luís. Às vezes penso que, se tivéssemos esperado mais, o desfecho poderia ter sido diferente. Não tenho como saber, mas hoje agradeço por ele ter chegado exatamente quando chegou.

Quando vejo Luís correndo atrás de uma bola e completamente apaixonado por futebol, acho curioso lembrar que ele nasceu exatamente durante a final daquela Copa do Mundo. Talvez isso fosse inevitável.

Depois de alguns dias, recebemos alta e voltamos para nossa pequenina casa e a vida seguiu.

Como quase tudo na maternidade, o tempo não apaga as cicatrizes, mas ensina que elas também podem contar histórias de amor.

→ Clique aqui para ler o próximo texto da série.

Share this content:

Gostou dessas dicas? Inscreva-se pra receber mais!

Publicar comentário