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Aqui entre nós: eu engravidei antes de casar

Aqui entre nós: eu engravidei antes de casar

Tenho que contar algumas coisas pessoais para falar sobre o assunto.

Em menos de um ano, nossa amizade se transformou em namoro e já começamos a morar juntos em março. Em maio, após o casamento religioso da prima de Henrique, decidi que queria casar formalmente e conversamos sobre isso.

Então não houve pedido? Não. Eu que lancei a ideia porque achei a cerimônia linda.

Ele concordou e falamos com meu pai — por incrível que pareça, uma das partes mais fáceis desse processo, apesar de eu ser a única filha e caçula.

Em menos de um mês após a conversa, eu engravidei e decidimos apressar a cerimônia, que já era uma vontade nossa. E, nesse processo, pensamos muitas vezes na reação das pessoas. Se o preconceito não existia, por que eu sentia tanto medo dessa reação? Por que aquele receio parecia tão natural?

Na época, eu não sabia responder, mas o corpo percebe antes aquilo que ainda não conseguimos nomear.

Casamos em setembro com o Ju no forninho.

E, antes de conhecerem meu filho, algumas pessoas já estavam preocupadas com a cor da pele dele, com o formato do nariz e a textura do cabelo.

“Tomara que puxe para você.”
“Tomara que tenha o seu cabelo.”

Ouvi essas frases tantas vezes que elas pareciam fazer parte da paisagem. Naquele momento, eu ainda não compreendia tudo o que havia por trás daqueles comentários. Apenas sentia um desconforto difícil de explicar.

Se estava difícil antes, imagine quando ele nasceu.

Ainda no resguardo, antes que eu retirasse os pontos da cesárea, nós percebemos que ele seria pardo ou negro, especialmente pelas chamadas manchas mongólicas, como eram conhecidas na época. E, a partir dali, começaram os comentários:

“Tudo bem ele ser moreno. Um moreno jambo é muito charmoso. Mas você precisa cuidar do nariz.”

E começaram a apertar o nariz do pequenino Ju, me ensinando a “afinar”, como se isso fosse possível ou necessário. Sugeriram que eu colocasse um pregador.

Também diziam:

“Não se preocupe se o cabelo for ruim. Não é tão feio em homens; para mulher é pior.”

Para começar, sempre tive pavor dessa expressão profundamente naturalizada no Brasil: “cabelo ruim”. Essa, eu nunca precisei aprender a nomear. Desde criança, ela me incomodava profundamente. Nunca acreditei que falasse sobre fios de cabelos. Para mim, sempre revelou algo maior: a forma como aprendemos a atribuir valor a determinadas características físicas e a desvalorizar outras. Hoje não tenho dúvidas de que essa linguagem ajuda a perpetuar o racismo no cotidiano.

Poxa, Ju nasceu com Apgar 1-6, quase precisou ser reanimado. Eu tive a pior prisão de ventre da vida, minha cicatriz foi três vezes maior que o normal, mas, para algumas pessoas, nada disso parecia importar tanto quanto suas características fenotípicas.

Chegaram ao ponto de olhar para o órgão genital do meu bebê e rir, afirmando que “seria grande”, já que era negro. E tiveram a coragem de perguntar sobre o “pinto” de meu esposo durante as visitas, enquanto eu estava com o peito ferido e sangrando pelo começo da amamentação.

Poxa, minhas expectativas naquele momento eram outras: se eu seria capaz de amamentar, quando o umbigo dele cairia, como seria o retorno ao trabalho.

Outras mulheres também são questionadas sobre o pênis do esposo e do filho durante o resguardo? Ou isso acontece apenas com mães e esposas de homens negros?

Outras crianças têm o seu nariz apertado na primeira semana de vida? Ou apenas crianças pardas e negras?

Na época, eu ainda não sabia dar nome ao que estava vivendo. Não sabia o que era hipersexualização de pessoas negras. Apenas achava tudo constrangedor e de péssimo gosto.

Não poderia imaginar que minhas preocupações maternas iriam, para sempre, muito além do que eu esperava. Ser mãe de crianças negras significaria enfrentar uma rotina de desafios extras.

Naquele momento, imaginei que seriam lembranças isoladas do começo da maternidade. Mas eram os primeiros capítulos de uma história que ainda nos acompanharia por muitos anos.

→ Clique aqui para ler o próximo texto da série.

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